Sua história de abandono foi tão dolorida que a memória engavetou
aquela dor. Mas não apagou.
Conversamos por um tempo e o lamento foi: “Não pude sequer ser ouvida. Não soube o
que fiz. Não tive o direito de apresentar minha defesa”.
Isso me fez pensar sobre
tantas pessoas, crianças, jovens ou velhos, que trazem dentro si uma lembrança
que não foi apagada, porque simplesmente seu processo de exclusão foi
unilateral, sendo-lhes negado o direito de se defenderem, talvez, daquilo que
nunca souberam ser o motivo de sua exclusão.
Lembro-me de muitos assim. Lembro-me da criança, cuja voz
nunca foi ouvida e que seu choro jamais foi escutado, diante do abandono. Lembro-me
da mulher e da dor do abandono que lhe
foi imputada, sem que pudesse falar de como se sentia. Lembro-me do homem cuja
dignidade foi negada quando desejava ser visto como cidadão. Também me lembro do
idoso cuja vida foi inteiramente dedicada ao trabalho e na sua velhice seus
direitos foram furtados, causando-lhe
frustração.
Enfim, muitos tiveram de se resignar diante das injustiças,
do abandono, do silêncio e da negligência, porque seus algozes lhes negaram o
direito de se defenderem.
Meu coração sentiu a dor daquela pessoa.Vi suas lágrimas quentes. Ela pôde
defender-se diante de mim, mesmo não
sendo eu que lhe ferira. Simplesmente queria ter ouvida sua justificativa de
algo que nunca soube que fizera. Bastava ser ouvida...

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